Vitimologia: o caso da professora branca que fingia ser negra

“Da última vez que a vi, ela era loira”.

Assim uma pessoa da família resumiu o caso de Jessica Krug, professora da George Washington University que só não é mais bizarro porque os Estados Unidos estão passando por vários furacões políticos e sociais no momento.

Para se passar por negra e ter uma cátedra de estudos africanos – fora especialidade em América Latina -, Jessica, que diz falar português, seguia um figurino estereotipado.

Cabelos tingidos de preto e amassados, brincões de argola, vestidos com estampa afro e o apelido de “Jess La Bombalera”, correspondente à sua mais recente identidade inventada, a de afro-caribenha do Bronx.

Detalhe: um colega negro desconfiou porque ela era ruim de dança, apesar do apelido de rainha da salsa.

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Outro disse que a defendia dos que não a achavam “negra o suficiente”.

“Eu sabia que tinha alguma coisa errada”, escreveu Harri Ziad. “Vinha de uma negatividade e de um ciúme constantes, sempre achando que tinha que provar sua autenticidade à custa de tudo mais”.

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Uma aluna finalmente apresentou uma queixa. Sabendo que a casa tinha caído, Jessica fez uma longa “confissão”, atribuindo a farsa a “demônios não resolvidos” relacionados a problemas de saúde mental originários da infância no Kansas.

Como fazem os sociopatas escolados, Jessica cultivava o perigo. Escreveu um ensaio com o título tirado de uma frase que alega ter ouvido do moçambicano encarregado de recebê-la no aeroporto de Maputo, onde havia desembarcado com uma bolsa de estudos: “Nós achamos que você seria branca”.

De Angola, ela voltou com outro ensaio carregado de chavões, intitulado “A estranha vida do lusotropicalismo: raça, nacionalidade, gênero e sexualidade em Angola”.

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Num livro recém-lançado, com o insuportável título de Modernidades Fugitivas, a professora fake fez uma dedicatória misteriosa: a seus antepassados, a seu irmão e “àqueles cujos nomes não posso dizer, por motivos de segurança, seja no meu barrio, no Brasil ou em Angola”.

Qual os pontos em comum entre lugares tão diferentes, onde o simples ato de falar o nome de alguém pode expor a pessoa a perigos insinuados?

Imprimir um ar de aventureira global fazia parte, claro, da persona inventada por Jessica.

Impostores que se passam por celebridades ou milionários são uma constante na crônica policial. 

Mas o caso da professora universitária evoca uma pergunta inevitável: por que ela escolheu se fazer de negra e não de refugiada de Kosovo ou sefardita da Tunísia, como combinaria mais com seu histórico real de ascendência judaica?

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É claro que Jessica não se apresentava como uma historiadora negra numa universidade de elite, com uma honrosa história de sucesso acadêmico, mas como vítima do racismo institucionalizado. Contou certa vez a seguinte história:

“Quando eu era criança, não tinha como escapar da violência policial. Eu tinha cerca de cinco anos e estava voltando do parque com meu irmão, que tinha uns doze anos, e policiais o jogaram no chão. Assim foi toda a minha vida”.

Existe exemplo mais perfeito de vitimologia inventada?

A condição de negra também ajudou quando ganhou verba de um centro de pesquisas de cultura negra e uma bolsa no exterior bancada pelo farto dinheiro que irriga as instituições beneficentes voltadas para minorias. 

A segunda pergunta que o caso de Jessica Krug evoca é: e daí? Ele fez algum mal, exceto contra si mesma, ao se condenar a uma vida inventada?

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Os ex-colegas reclamam mais que a posição e as verbas obtidas por ela tiraram a vez de acadêmicos “negros de verdade”.

Mas a produção acadêmica de Jessica Krug é exatamente do mesmo calibre da que seria produzida por professores com múltiplos tons de pele. 

A área intelectual onde ela circulava não é exatamente a vanguarda do pensamento. 

Repetir chavões, imprecar contra o imperialismo e enquadrar minorias raciais na “narrativa do coitadinho” são recursos amplamente explorados no mundo acadêmico. Aliás, parecem estar se tornando obrigatórios.

Detalhe melancólico: no prédio onde mora, em Nova York, uma vizinha, Anna Andersen, disse que foi xingada de “ralé branca”. As duas tiveram um desentendimento por causa das bicicletas e Jessica aproveitou o assunto do momento com a cara de pau dos impostores profissionais.

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“Você sabe o que a polícia faz com gente como eu?”, perguntou.

Fonte:
https://veja.abril.com.br/blog/mundialista/vitimologia-o-caso-da-professora-branca-que-fingia-ser-negra/