Novidades sobre o vírus, se é que ainda se lembram dele

Tanta coisa foi escrita sobre as mudanças cósmicas que a pandemia traria para a humanidade, mas a humanidade parece querer as mesmas coisas de sempre.

Sair de casa, passear, tomar uma cerveja no bar, comprar. Comprar, comprar e comprar mais um pouco, ao vivo, fora da esterilidade virtual.

Atos simples do cotidiano que ficaram suspensos durante dois ou três meses.

As filas na frente da Nike e da Primark no dia da reabertura do comércio em Londres foram um atestado que o povo quer vida normal, não o pavoroso mundo novo de tantas distopias anunciadas no pós-vírus.

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Com os mortos na casa das duas ou três dezenas na Espanha ou Nova York – que vale por um país -, um pouco mais na Inglaterra, populações inteiras deram por terminada a praga do novo vírus. 

Ninguém combinou isso pelo Face ou outras formas de comunicação.

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As antenas coletivas captaram a mudança e o comportamento de manada, a reação grupal não combinada, ditou as atitudes de populações inteiras.

Houve reincidências em alguns países?  Pequim vai ser fechada? Texas e Flórida em alerta? Cientistas alarmados?

Bola para frente.

As quarentenas funcionaram para controlar os números exacerbados nas regiões americanas e nos países europeus mais atingidos.

Talvez tenham se prolongado um pouco além do necessário ou sido severas demais – tudo será medido em incontáveis estudos sobre um fenômeno que nunca ninguém tinha visto antes.

Mesmo que não usem as palavras mais diretas, especialistas afirmam que nunca mais haverá o shutdown radical que evitou o pior em termos de vítimas, mas arrastou tantas atividades econômicas para o buraco.

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“Nunca mais poderemos permitir um fechamento em massa”, escreveu no Times de Londres o empresário Luke Johnson, filho do historiador Paul Johnson e criador de redes de restaurantes, tomando o caso do Reino Unido como exemplo.

“Não podemos mais nos dar a esse luxo: o governo terá sorte se conseguir tomar emprestado o dinheiro gasto para salvar a economia, levando nossa dívida a mais de 2 trilhões de libras”.

O caso britânico se aplica a todos os países onde a epidemia foi brava e o endividamento brutal, excetuando-se seu berço, a China.

A explosão do caso George Floyd, negro morto por policiais brancos, e as ondas de choque que espalhou não só sobre os Estados Unidos, ajudaram a, simbolicamente, “enterrar” as precauções.

Se tantas pessoas podem se reunir em tantos lugares, tão proximamente como nas manifestações e protestos pacíficos ou violentos, o vírus já está sumindo, certo?

“Há mais vírus circulando agora do que antes do estado de emergência”, disse ao El País a virologista Margarita del Val, coordenadora de um grupo de estudos sobre o novo coronavírus.

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Ela se baseia no número de pessoas que agora estão indo aos hospitais por outras doenças, não tratadas durante a pandemia, e são submetidas aos testes do novo vírus.

“Pessoas sem o mínimo sintoma estão dando positivo e é um número importante que pode contagiar”.

Como evitar os contágios?

Cada vez mais pesquisadores concluem que a transmissão através do toque em objetos contaminados é “menos importante” – uma forma suave de dar a notícia.

Importante mesmo são as máscaras, as mesmas que todos nós fomos tão aconselhados a evitar no começo da epidemia.

A onda das infecções mudou dramaticamente quando o uso de máscaras entrou em vigor no norte da Itália e em Nova York, diz um estudo que saiu na publicação da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

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As máscaras são mais importantes do que o isolamento social, as quarentenas e as medidas higiênicas como lavagem das mãos, disseram os pesquisadores.

Falar alto, gritar e cantar são formas adicionais, fora os espirros e a tosse, de transmissão do vírus.

E a exposição contínua em lugares fechados, por períodos prolongados, a forma mais perigosa de transmissão.

O caso já clássico é o da chinesa que fez uma viagem num ônibus só com circulação do ar interno, ao longo da qual contaminou 23 pessoas.

O vírus, portanto, é transmitido pelo ar, através de aerossóis e não apenas das gotículas contaminadas?

Ainda não existe consenso.

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Um estudo da Science diz que sim.

“Os aerossóis podem se acumular, continuar infecciosos durante horas em ambientes fechados e entrar facilmente nos pulmões via inalação”.

Falta dizer quem aguenta, fora dos espaços hospitalares, passar o dia inteiro com máscaras.

“A capacidade de atuação de uma sociedade é poderosíssima”, disse Margarita del Val, saindo do campo da epidemiologia para o do comportamento – ambos, obviamente, se complementam.

“Se não tivéssemos querido nos confinar, a pandemia teria sido explosiva. Se nos mantivermos assim, podemos nunca ter uma segunda onda”.

”Depende de nós”.

Fonte:
https://veja.abril.com.br/blog/mundialista/novidades-sobre-o-virus-se-e-que-ainda-se-lembram-dele/