Coronavírus: China testa aplicativo de controle social

Por meio de um aplicativo, o governo da China iniciou o monitoramento da saúde dos seus cidadãos -classificados com bandeira verde, amarela ou vermelha – para controlar onde e quando cada pessoa esteve. O software ajuda a combater a propagação do novo coronavírus, mas também abastece a polícia com informações pessoais dos usuários, segundo o jornal americano The New York Times.

Oficialmente, o aplicativo Alipay Health Code foi criado pela empresa Ant, um braço da gigante chinesa Alibaba, e funciona com base na comparação entre “relatórios de integridade pessoal” e informações do sistema de saúde. Caso a pessoa receba uma bandeira amarela ou vermelha, deverá se isolar e realizar um check-up médico. Se os testes não encontrarem no paciente uma doença como o Covid-19, causada pelo coronavírus, a bandeira fica verde, e o cidadão pode ingressar em locais públicos novamente. 

Segundo o governo chinês, o aplicativo é “a chave para a prevenção e controle de epidemias”, e que garante a volta ao trabalho com mais tranquilidade, saúde e segurança. O sistema foi primeiro introduzido em Hangzhou e posteriormente disseminado por outras 200 cidades.

Pequim não diz como a análise é realizada e o que é feito de seu resultado. O Times, por sua vez, analisou o código fonte do software e encontrou mais funções do que a de apenas determinar se uma pessoa oferece risco de disseminar uma doença.

A análise constatou que, logo após o usuário aceitar os termos e condições do aplicativo, seus dados, como nome, localização e número de documentos, são enviados às autoridades por meio de um arquivo chamado “reportInfoAndLocationToPolice” (“Enviar Informações e Localização para a Polícia”, em português).

Além de enviar os dados, toda vez que o aplicativo é escaneado – a bandeira mostra um código QR -, sua localização também é armazenada nos servidores do sistema. Isso possibilita, com o tempo, o rastreio dos percursos do cidadão pelo governo.

 

É comum em regimes autoritários a adoção de controles da população. No começo do surto do novo coronavírus, em dezembro de 2019, autoridades na cidade de Wuhan, epicentro da doença, tentaram censurar o médico Li Wenliang após ele ter alertado seus colegas sobre uma doença desconhecida. Wenliang morreu em fevereiro em decorrência de contaminação pelo coronavírus.

A mesma China adota desde 2014 um Sistema de Crédito Social (SCS), que deve atingir toda a população neste ano. O projeto funciona monitora o comportamento de todos os cidadãos e empresas, conferindo pontos positivos e negativos, como uma espécie de ranking de confiança do governo.

Os chineses que levarem multas de trânsito, desrespeitarem ordens judiciais, fumarem em locais proibidos, acumularem dívidas, recusarem ingressar no serviço militar obrigatório ou postarem notícias falsas online, entre tantos outros critérios, podem ter seus créditos reduzidos. Nesses casos, as punições vão de restrições na compra de passagens de avião e trem ao bloqueio de acesso a linhas de crédito, passando pela proibição da matrícula dos filhos nas escolas melhores e pelo veto a um posto de trabalho em órgãos públicos.

O novo coronavírus atingiu, até o momento, 64 países pelo mundo, matou mais de 3.000 pessoas e infectou outras 87.000. Apesar de os números de novos casos estarem diminuindo na China, no resto do mundo, eles continuam a aumentar. Somente no sábado 29, foram reportados 1.160 novos casos fora de território chinês – que registrou apenas 579, segundo a Organização Mundial da Saúde.

Fonte:
https://veja.abril.com.br/mundo/coronavirus-china-testa-aplicativo-de-controle-social/