Baile de máscaras: em vez de uso diminuir, irá aumentar

A cena é repetida nos países onde o uso de máscaras não faz parte da cultura urbana: uma pessoa desce do ônibus ou sai de um supermercado, arranca aquela coisa incômoda do rosto e guarda no bolso ou na bolsa para a próxima sessão.

Todos sabem perfeitamente que é errado, tendo se submetido a infinitas sessões de aconselhamento de especialistas pela televisão e pela internet.

Está em jogo aí um cálculo de risco. Nos países europeus, a praga do coronavírus foi controlada, chegando em alguns deles à total inatividade. A população se sente mais livre para arriscar.

Por que, então, as máscaras se tornarão obrigatórias durante o horário de trabalho dos funcionários públicos na França e nas lojas em geral na Inglaterra?

Existem duas respostas, uma ruim e outra muito ruim.

Leia nesta edição: Como a pandemia ampliou o abismo entre ricos e pobres no Brasil. E mais: entrevista exclusiva com Pazuello, ministro interino da SaúdeVEJA/VEJA

A ruim: o governo do primeiro-ministro Boris Johnson está apavorado com a epidemia de medo que tomou conta do país, limitando drasticamente atividades que já foram liberadas.

Lojas, restaurantes e escritórios com pouco movimento são a prova disso, submetendo a economia a um stress maior ainda do que o já infligido durante a paralisação de atividades.

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A aposta aí é que os consumidores se sentirão mais garantidos para ir às compras em locais onde todos estão mascarados, limitando assim a possibilidade de contágio.

Nem que seja apenas simbolicamente, considerando-se que o uso inadequado é universal.

No último dia contabilizado, todo o Reino Unido teve 538 novos casos e 85 mortes – no pior dia , em 21 de abril, elas chegaram a 1.172.

Trens vazios, urbanos e suburbanos, atestam o que já foi chamado de morte do modelo de negócios que transformou Londres no mais vibrante centro financeiro do mundo, com o setor de serviços  substituindo as manufaturas.

O setor financeiro e o varejo dependiam do transporte de massa e do turismo. Os “buracos” na paisagem humana de Londres indicam o tamanho do estrago.

Outros nichos, como espetáculos, moda, luxo, hospitalidade e restaurantes deparam com a pura e simples extinção.

As máscaras obrigatórias em todas as lojas a partir do dia 24 são uma tentativa tênue de salvar alguma coisa do comércio.

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E a resposta muito ruim?

Está embutida na decisão de mascarar os funcionários públicos anunciada por Emmanuel Macron no desenxabido 14 de julho sem desfile militar e multidões festejando o feriado nacional.

É o medo de que o novo coronavírus tenha sido apenas temporariamente domado e volte a subir, como na Califórnia, na Flórida e em Israel, estando ainda vinculado à primeira onda da pandemia.

A segunda, se houver, atacará durante o inverno no hemisfério norte.

“O fim do confinamento não significa o fim da crise sanitária”, avisou o novo primeiro-ministro francês, Jean Castex.

Ele também disse, categoricamente, que nunca mais haverá uma paralisação total de atividades, com seus resultados catastróficos para o emprego e a economia em geral, com gastos emergenciais que detonam as contas públicas e evitam apenas os desastres imediatos.

As duas correntes que discutem a adequação das respostas à pandemia continuam tão, ou mais, conflitantes agora do que no começo da crise.

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Uma acha que o lockdown demorou demais e teria salvo dezenas de milhares de vidas nos países mais afetados se tivesse sido antecipado em poucas semanas.

Outra defende que o lockdown foi uma medida ditada pelo medo e criou uma catástrofe não só momentânea como projetada para as próximas gerações, sob a forma do endividamento e dos inevitáveis cortes de investimentos sociais que recairão sobre elas.

Esta corrente não diz, mas deixa subentendido que alguns milhares de mortes a mais, especialmente entre os idosos improdutivos e consumidores de recursos, seriam o preço a pagar por um confinamento por nichos, sem a paralisação das atividades econômicas.

Alguns sonham que poderiam estar vivendo na Suécia, o único país avançado que seguiu este caminho, embora a realidade seja a do Brasil.

Como tudo nessa doença, e na vida de forma geral, a obrigatoriedade das máscaras foi politizada.

Numa simplificação ao extremo: direita contra, esquerda a favor.

E, também como tudo, os Estados Unidos são o epicentro da disputa.

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Ninguém nem se lembra mais da época do início da pandemia, quando a “Ciência” – com aspas para indicar uma não existente entidade que emite raios de sapiência incontestável – não só não recomendava o uso de máscaras fora dos ambientes hospitalares como dizia que elas eram perigosas.

A “Ciência” agora apoia fervorosamente as máscaras, mas, num país criado sobre a preservação dos direitos individuais, a resistência é grande.

O governador da Geórgia, o republicano Brian Kemp, baixou um decreto proibindo os municípios de exigir o uso obrigatório de máscaras.

Ele “aconselha fortemente” que elas sejam usadas, mas não quer a obrigatoriedade. 

Os prefeitos, claro, espernearam. Chelsea Handler, comediante e aparentemente especialista em direito internacional, disse que Kemp estava cometendo “crimes de guerra”.

No Alabama, a governadora Kay Ivey, também do Partido Republicano, determinou o uso obrigatório nos transportes públicos e em todos os espaços onde se congreguem mais de dez pessoas.

“Sempre prefiro a responsabilidade individual a decretos do governo”, disse. Mas os números “estão definitivamente apontando para o lado errado”.

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A única esperança de que as máscaras, mesmo que mais usadas no queixo o no bolso, sejam definitivamente descartadas é uma vacina eficiente.

Nada surpreendentemente, os hackers do governo russo estão tentando roubar os segredos da vacina mais promissora, a de Oxford.

Dos líderes que resistiam a usar máscara, Vladimir Putin é o único que continua de cara limpa em qualquer situação, inclusive visitas a hospitais.

Para falar com ele, é preciso passar pela ducha de desinfecção do tipo existente em algumas estações de metro.

O uso obrigatório das máscaras nas ruas foi suspenso esta semana na Rússia, onde foi registrado um total de 12 mil mortes. O número de mortos está em declínio, embora ainda alto.

E embora ninguém acredite em números russos.

Fonte:
https://veja.abril.com.br/blog/mundialista/baile-de-mascaras-em-vez-de-uso-diminuir-ira-aumentar/